O deserto povoado: o dia

Sabe as coisas são espelhos … As estrelas, espelhos de nós, nós espelhos do universo …

A paisagem agora aparentemente não é variada em cor, as cores que surgem são cinzas como se não pudesse existir cor onde não há vida.

Ainda assim é preciso restaurar as cores, se o céu noturno brilha constante e além, aqui na paisagem onde a solidão é de quem nela vive e não dela, tudo pode ser considerado pura monotonia ou um convite a sermos criativos, a sermos humanos, resilientes para a construção de um mundo que não nos acompanha e nos abandona, nós somos a paisagem no caminho solitário daqueles que não querem nos perceber, nem ser conosco a variada maravilha de ser junto, esse é o ensinamento estelar, que em pesar as distâncias entre as estrelas, a nós parecem estarem próximas, porém nós, insignificantes que somos, juntos e amontoados num único planeta que aparentemente deveríamos viver juntos, na verdade se vive a mais completa solidão apesar de toda forma de união que se possa pensar.

Se a vida fosse um livro seria um capítulo longo e único. A pergunta seria sempre: onde começou, ou como teria começado o livro, ou, teria fim a obra?

O deserto povoado: noite

A noite segue seu curso como as estrelas no céu. Conforme passa o tempo outro momento próximo está perto de acontecer.

As estrelas e a vida são parecidas, brilham, apesar de não estarem mais ali? Como viver e deixar sua marca? Em forma de luz na aparente escuridão da existência fria como esta noite solitária a não sei quantos metros de altura.

A vida é algo assim mesmo, uma noite que iluminamos com a nossa existência e que irá ficar gravada num espaço específico e ainda incompreendido por muitos.

A noite é fria, lá embaixo penso ver sempre, vez ou outra, pequenos grupos de pessoas, como se estivessem paradas, mas são apenas pedras. São apenas pedras e elas, ali, naquela imensidão de vazios, me comunicam muito mais do que qualquer ser vivo poderia me falar, as montanhas me mostram que há dois caminhos a percorrer, um deles é a própria existência e o outro, o céu.

O frio intenso da noite é terrível, mas devo ficar acordado assistindo a história das estrelas para que eu não adormeça e vire apenas um conto do tipo “era uma vez …”.

O deserto povoado

As vezes a solidão é algo necessário para que busquemos o próximo.

Faz dias que comecei a caminhar aqui no deserto do Chile. O vento está muito forte e frio. Já vi miragens que pareciam grupos de pessoas caminhando e, quanto mais me aproximava, constatava que era apenas mais algum tipo de barranco ou duna no caminho.

As vezes me esqueço que estou só e a natureza me lembra que sou só eu e ela. As vezes a solidão me lembra da natureza e de que a solidão não é a natureza humana.

Teve alguns momentos em que eu olhava em volta, pra trás, ficava assim por muito tempo … e aos poucos jurava que alguém me acompanhava ou seguia … era o caminho, o caminhante e o caminho andam juntos …

Agora está perto do anoitecer e está frio, mas não venta. Não há ninguém, nenhum lampejo de vida, só eu, então há vida, eu posso constatar, mas por outro lado constatar pra quem? Não há ninguém que possa constatar que constatei …

A noite chegou e estou tremendo de frio … está totalmente escuro e venta muito forte, estou quase adormecendo … momentos atrás quase fechei os olhos pra dormir, e pensei ter visto um vulto com formas femininas, acho que deve ser melhor dormir, amanhã será mais um dia …

Outros

Somos muitas coisas. Somos felizes, tristes, verdadeiros, falsos, etc. Somos em apenas uma personalidade muitas outras. Nunca somos os mesmos a cada instante que passa, pois a natureza do que somos é inconstante.

Permanecemos crendo que o que somos é parte de uma unidade e, provavelmente aquele que assim pensa age como sendo uma mula. Coitada da mula, pois ela também é múltipla e complexa.

Os outros se esquecem de que os outros não são só os outros porque os outros também somos nós e nós também somos outros desdobramentos de nós mesmos.

As múltiplas personalidades seriam as representações que fazemos ao atuarmos nos vários palcos da vida social. Péssimos atores que somos, nós seres humanos tendemos a pôr tudo de verdade nas nossas interpretações, ou seja, quero dizer com isso que até nas situações sociais somos tão verdadeiros no agir que uma multidão seria o mesmo que um monte de gente, uma massa de seres iguais e monotonos.

Outra coisa é atribuir histórias e identidades a cada personalidade, uma forma esquizoide de personalidade pode ser perigosa somente se em uma única pessoa se encontrarem dois tipos diferentes de personalidade.

Podemos observar na literatura uma vasta gama de personalidades que vão desde o normal até o mais incrível. Nos próximos posts falarei mais sobre a personalidade de personalidades famosas com ou sem personalidade.

O hoje é o agora

O hoje será tão … O agora será perene … dito isso as coisas são o que são, mas também o que não são, uma forma malsã de si.

O hoje é para ser e não ser e o agora só pode ser o eterno que também não é o agora, mas já foi o passado e o presente.

O presente não é eterno: ele passa. O eterno não dura para sempre, pois se torna passageiro, inefável, como um caminho feito a pé até chegarmos em nossas casas e constatarmos, sóbrios e solitários que tudo está onde deveria estar, inclusive as estrelas!, já nosso coração talvez já se tenha perdido num espaço e num tempo a muito tempo esquecido pelo próprio tempo.

Paisagem semeada

Sabe essa planta aí da imagem? Que planta? Que imagem?

Imagine. Se não quiser, visualise através das palavras e verá então que é só outra forma de imaginar: ler.

Um dia num lugar muito distante havia uma planta solitária num deserto de ideias vindas de várias partes do universo.

Um viajante a achou, colheu, percebeu sua felicidade mais a da planta de estarem ali naquele momento de introspecção para o jovem e de profunda agonia para a planta.

O que aconteceu em seguida foi que a planta foi levada embora junto com o viajante e proliferou em outro lugar no infinito do espaço.

Há lugares povoados de solidão e solidões tão necessárias quanto a presença, a companhia das estrelas em noite nublada, escura, onde as estrelas se esconderiam dentro de nós e não atrás da paisagem.

Fragmentos do deserto

Que o vento traga bons pensamentos …

… as tempestades de areia todas são feitas de pequenas reticências …

Tudo é indefinição.

E o visível não é mais que ilusão. A loucura tomou conta e já não há mais que fazer senão representar o seu papel e jogá-lo fora como algo mastigável até que o sabor surja e possa ser saboreado e cuspido como interpretação …

As noites, os dias, são os mesmos. O que é diferente são as dunas mais os raros oásis. Vi uma miragem, não vi, pois era verdade: o deserto é real.